Cerveja ilibada

Desfaz-se o mito: não há relação directa entre álcool e «barriguinha».

 

Imperiais, finos, louras, pretas, ruivas – em Portugal cada habitante bebe em média 65 litros de cerveja por ano mas pouco se sabe sobre os efeitos da bebida na saúde. Os especialistas ajudam: não é consensual mas há fortes evidências de não haver uma associação directa entre o etanol, e a cerveja em particular, e a adiposidade abdominal, sobrepeso ou obesidade. No Simpósio Cerveja e Peso Corporal promovido pelo Centro de Informação Sobre Cerveja desfizeram-se os mitos e ficou a recomendação: o consumo moderado, que é como quem diz uma cerveja por dia, ajuda a reduzir o risco de doenças cardiovasculares ou osteoporose e não engorda.

“Quando se fala de bebidas alcoólicas fala-se normalmente do vinho; a cerveja é esquecida. Tudo o que se faça nesta área sobre os efeitos dos componentes da cerveja na saúde é importante e é por isso que a promovemos dando bolsas a estudantes finalistas e de mestrado para que façam investigação na esta área. Tudo isto num contexto de consumo moderado”, dizia ao Ciência Hoje José Miguel Machado Cruz, secretário-geral do iBeSa desde a sua formação em 2002 enquanto associação privada sem fins lucrativos promotora da investigação nesta área, hoje com 14 bolseiros.

À entrada do auditório, o responsável defende que é importante sociedade e comunidade médica tomarem contacto com os passos que a ciência tem dado no esclarecimento deste tópico. “Por exemplo em relação ao mito de que a cerveja faz barriga, isso hoje está bem esclarecido e não me parece ser verdade. O consumo da cerveja, do que estudamos, só poderá trazer problemas mais em relação à mulher numa situação de cancro da mama. Agora se uma pessoa saudável beber cerveja pode dizer-se que em termos cardiovasculares é um comportamento saudável; além de que há outros componentes que devem ser avaliados pela comunidade cientifica. O silício, por exemplo, estando presente na cerveja, é fundamental para problemas ósseos”.

 
 

É uma manhã de Sábado e a sala não chega a encher. Para os oradores um dos pontos essenciais é transmitir corrigir informação incorrecta que vem sendo veiculada pelo senso comum sem qualquer validade científica. Para o efeito, o iBeSa organiza anualmente as jornadas Bebidas&Saúde, para apresentar os resultados dos investigadores associados, e gere on-line um portal inteiramente dedicado à divulgação de artigos científicos e projectos nacionais e internacionais e um arquivo sobre o tema. “Começámos a trabalhar em 2002 e julgo que neste momento estamos no nível europeu, estamos bem. Temos caminhado com passos certos”, sublinha Machado Cruz.Previne o mau colesterol

A cerveja é feita de cevada maltada, alguns cereais não maltados, lúpulo – uma planta rica em polifenois com reconhecidas propriedades antioxidantes – e água, uma receita rica em vitaminas e sais minerais. Um dos compostos de maior benefício para a saúde, destacam os investigadores, é o xanto-humol, presente no lúpulo: protege as LDL (Lipoproteína de baixa densidade) do sangue de oxidação, ou seja, previne o mau colesterol e tem revelado propriedades anti-cancerígenas. Já o silício, presente na cerveja em altas concentrações e facilmente bio-disponível, promove a mineralização dos ossos combatendo neoplastias e osteoporose.

Luís Matos é o autor da primeira avaliação sobre o consumo de cerveja e índice de massa corporal na sociedade portuguesa. Convidado para apresentar os resultados do estudo que diz transversal e com limitações derivadas do volume da amostra – 50 mil pessoas, inquiridas telefonicamente – o jovem investigador, mestre em Nutrição Clínica, diz que não existe uma relação de causa-efeito neste capítulo.

“O estudo que eu venho apresentar tem algumas limitações mas de facto nós não encontrámos qualquer associação entre o consumo de cerveja e a prevalência de excesso de peso e obesidade, excepto numa faixa etária muito específica, dos 25 aos 34 anos, em que realmente detectámos que quem consome seis cervejas ou mais por semana tem um maior risco”, disse ao Ciência Hoje.

“Este estudo foi baseado em inquéritos do Instituto Nacional de Saúde em que o consumo é indicado pela pessoa pelo que há sempre esse viés de informação. As pessoas têm tendência para dizer que bebem menos do que bebem na realidade, principalmente os consumidores mais pesados. Outra limitação é que peso e altura foram fornecidos pelos inquiridos”, frisou.

Consumo moderado parece ter efeito protector

A avaliação com base em dados recolhidos no final da década de 90 – o estudo posterior, de 2006/2005 ainda não estava disponível quando iniciaram os trabalhos – revela uma realidade que vai ao encontro da prevalência de pré-obesidade e obesidade em todas as faixas etárias e conclui que, apesar de ser muito difícil isolar todos os factores, o facto de, estratificada a amostra em faixas etárias, não haver mais que associações pontuais e pouco significativas permite excluir a hipótese de relação e avançar precisamente o contrário: consumo moderado parece ter um efeito protector.

Consensual ou não, a Sociedade Espanhola de Nutrição incluiu recentemente a cerveja na sua pirâmide alimentar. Exemplo a seguir? Para Luís Matos, a abordagem actual está errada mas “também não pode passar cá para fora a ideia de que se pode beber cerveja à vontade”. Fixe-se então o que são consumos moderados: 480ml para o homem, 250ml para a mulher, por dia, de preferência às refeições. Com última nota dos investigadores: Quem bebe, beba uma, quem não bebe não precisa de começar a beber.

Retirado de: http://www.cienciahoje.pt/.


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